Pequeno guia para os iniciantes em dramas coreanos
Desde que a tia netfreak ( Netflix) passou a trazer produções coreanas para o Brasil, esse tipo de conteúdo se popularizou bastante. Mas você sabia que essas produções também estão disponíveis em outras plataformas? A Amazon Prime e Disney+ (Starz+) tem conteúdo coreano, a Apple+ teve ano passado a fantástica série Pachinko, e principalmente a Viki-Kocowa, que traz conteúdo produzido em todo o leste asiático.
Dependendo do seu bolso, é coisa que não acaba mais, em coreano, japonês, mandarim, taiwanês, tailandês...
Mas fiquemos na Coréia do Sul por enquanto: é possível aproveitar mais e melhor as séries e filmes se você tiver algumas dicas culturais. Sim, pois os orientais não abrem mão das próprias referências - ao menos totalmente - para agradar às plateias ocidentais. Em primeiro lugar as obras são lançadas por lá! Existem alguns casos pitorescos de séries que fizeram mais sucesso no exterior do que na própria Coréia, mas é papo para viciado.
A primeira coisa que uma pessoa acostumada com o esquemão ocidental pode estranhar é a estrutura de episódios. Um seriado comum tem entre 16 até 20 episódios, e são poucos aqueles que ganham segunda temporada. Seriados com número menor de episódios são mini, ou feitos para o mercado internacional, e nem assim se garante uma segunda temporada. A estrutura narrativa costuma dar uma amarrada no final. Mesmo os finais ambíguos precisam ter algum sentido. Seriados mais longos, de 50 episódios, por exemplo, são os makjang, os novelões, cheios de reviravoltas e clichês, bem esquemáticos.
Entender certos comportamentos da sociedade coreana passa por entender a influência do confucianismo na história da Coréia. A Coréia se estruturou na tensão entre o budismo e o confucianismo, sendo um país de estudiosos, talvez mais conficianista do que a própria China!
A relação com a família é central, então pai e mãe são poderosos na vida dos filhos, e isso significa que os avós também são. Mas tem uma pegadinha aí. Quando a mulher se casa, ela deixa de pertencer a própria família e passa a pertencer a do marido, e então fica sob a tutela da sogra. Por isso é que o clichê da sogra tirânica é tão prevalente nos dramas coreanos: ele é real! Os divórcios aumentam consideravelmente na Coréia logo após os grandes feriados nacionais justamente porque os casais tem de ir visitar os pais do marido, e a esposa acaba tendo de se submeter à sogra, e isso impõe um estresse nas relações incrível.
Outro tema comum que soa estranho para nós é a viuvez feminina, especialmente nos dramas históricos. A viúva honrada era sequestrada do mundo, de preferência ela tinha de morrer para não manchar a honra do marido falecido. Existia até um livro das mulheres honradas. O pior é que quando uma família aceitava o contrato de casamento, mesmo que ele não tivesse sido realizado, ou consumado, a mulher era considerada casada, e então ela tinha de ser apagada, para honrar o falecido. Claro que a família do homem poderia relevar, mas era uma forma excelente de dirimir problemas de herança e reduzir uma boca para alimentar e sustentar. O mesmo se dá para as mulheres que eram divorciadas, tinham seus casamentos anulados: sofriam com a censura da sociedade. A bem da verdade, até hoje a sociedade coreana vê o divórcio de maneira muito negativa, desaprova pessoas que moram juntas em relações de fato sem formalização, e estigmatizam pesadamente mães solo e seus filhos. O mesmo não se dá com o homem, dado o caráter fortemente patriarcal da sociedade.
Se a sociedade é baseada na família, a mesma relação de hierarquia e obediência que a pessoa dedica a família ela dedica, por extensão, ao trabalho e ao estado. Por isso a coisa conformada, a separação por idades, a relação de sunbae (mais velho) - hobae(mais novo). Nós podemos achar muito estranho os pais pedirem que os mais velhos no trabalho do filho cuidem dele, mas para eles não é patético. Humilhações e agressões físicas já existiram, e talvez ainda existam em casos extremos, mas não devem ser habituais atualmente, nas novas gerações.
Ninguém se trata pelo nome. É bizarro ver uma pessoa ficar emocionada ao ser chamada pelo nome pelo parceiro, mas é que lá as pessoas tem tratamentos formais mesmo em família, portanto nomes, apelidos carinhosos... não são comuns como podem ser em vários países do ocidente. Brasileiro tá ferrado, pois a nossa noção de hierarquia é muito ruim, nós simplesmente não gostamos de muita hierarquia e não equacionamos respeito a simplesmente abaixar a cabeça. Dá choque cultural.
Hyung - irmão mais velho, quando um homem se refere ao seu irmão. Maneira que um cara fala com o outro.
Donsaeng - irmão mais novo, tanto faz se a mulher ou o homem falam do seu irmão ou irmã
noona - irmão falando da irmã mais velha. Como um homem fala de maneira carinhosa com uma mulher mais velha, que ele não tem interesse.
Unni - irmã, de uma mulher para outra
Oppa - irmão mais velho, uma mulher falando para um homem, mas pode ter conotação romântica. Meio cringe.
samcheon - tio
appa - papai
amma - mamãe
ahjussi - senhor, conotação de coroa, pessoa bem mais velha
ahjumma - senhora, conotação de coroa, pessoa bem mais velha
Sabem o lance de cair e alguém pegar? Parece que as moças são desastradas? É que não é uma cultura de contato físico, nem de muito contato visual direto. A bem da verdade até pouco tempo atrás a maioria das escolas era separada por gênero, então escolas mistas são até algo das novas gerações. O confucionismo tem aspectos que soam bastante misóginos aos ouvidos ocidentais, e a separação entre os sexos é um desses aspectos. Era mais comum um rapaz ter contato físico com outros rapazes do que conversar com uma menina fora da família até a faculdade. Como então naturalizar o contato físico e visual entre os sexos? Complicado! Da mesma forma, tanto pelo clima como pela atitude diante da sexualidade e da moral, as pessoas guardam bastante o próprio corpo, evitando decotes, transparências, acentuar curvas, e isso vale também para muitos homens. Daí que o que vemos é uma moda com menos pele a mostra, muita coisa coberta. Recentemente os idols tem desafiado esse padrão, mas aos poucos.
Outro tema importante é a relação com a Coréia do Norte. As duas Coréias estão ainda em guerra, meio que em uma trégua, mas ainda em conflito, e por essa razão o serviço militar obrigatório ainda vigora para todos os homens. Muitos filmes de ação tem a outra metade do país como objeto, e é complicado, pois são vilões sem ser: a ideia é que o regime é do mal, mas não o povo, pois o objetivo sonhado é a reunificação da península.
Japão e Coréia tem uma história sangrenta de invasões, saques, massacres. Isso é abordado em séries e filmes. Não misturem os dois jamais.
Após a Guerra da Coréia a Coréia do Sul foi uma ditadura, mas não são muitas as produções que abordam esse tema. Ah, tem alguns romances, coisa e tal, mas a política, a tortura, desaparecimento de pessoas? Não, nah nani nanan. Ainda é um tabu falar dos anos de ditadura por lá, tanto por causa das grandes empresas que cresceram e se expandiram durante esses anos, e elas mesmas assumiram o estado depois, quanto pelo fato de muitos políticos serem herdeiros dessa fase. Nós, latino americanos temos nossos esqueletos no armário, mas temos menos pudor em levá-los para passear.
A cultura do save-face, ou do tatemae japonês se aplica, de certa maneira ao coreano (nossa, eles devem detestar a comparação). A aparência importa, a polidez importa, e nem sempre falam o que pensam. Isso facilita que as confusões de comunicação que vemos nos dramas sejam mais críveis apesar de serem impensáveis para um brasileiro.
De um país eviscerado por uma guerra até a potência econômica que é atualmente, a Coréia levou pouco tempo, mas isso teve um preço. É curioso mas no início dos anos 50 a maioria da população era analfabeta, e hoje o analfabetismo é raro, especialmente entre as crianças. Com poucos recursos naturais e espaço cultivável escasso e um clima razoavelmente frio parte do ano, a probabilidade de ascensão econômica era baixa, mas com aliança com os Estados Unidos durante a guerra fria e sua posição estratégica entre a China e a União Soviética, baixos salários e direitos trabalhistas zero, o governo completamente aliada a classe industrial, aconteceu das empresas pautarem a política econômica e social do país. Na Coréia a pessoa ser um empregado da Samsung é objetivo de vida, e ela está presente na vida das pessoas desde os eletrônicos até hospitais, pois é um conglomerado com dezenas de atividades, tudo pertencente a uma família só. As famílias donas desses conglomerados são chaebols, e são a moderna aristocracia da Coréia, para eles tudo é possível, faz filho de presidente no Brasil parecer fichinha. O presidente da Samsung, ou herdeiro com mais ações é como um Príncipe Herdeiro, e os outros são o supra sumo dos yangban.
Semana de trabalho por lá é facilmente coisa de 52 horas, e o governo queria aumentar para 59. As pessoas realmente dormem no trabalho às vezes. A política de evitar relacionamentos no local de trabalho que muitas empresas implementam no Brasil é inviável na Coréia, pois as pessoas vivem no trabalho.
Quanto a bebida: o coreano médio bebe bem mais do que o brasileiro médio. E bebe soju, que tem uma concentração alcoólica maior do que a cerveja. Para nós é estranho ver como as pessoas são quase obrigadas a acompanhar o chefe para beber, inclusive as mulheres, e as preocupações com assédio que nós temos não são infundadas, pois realmente ocorrem. Todavia o álcool é parte da socialização deles, e nos resta olhar e pensar: ai, meu fígado, que me venha o chá de boldo!
Cigarro é outra praga. No Brasil temos uma campanha anti-tabagismo que dura décadas, mas no leste asiático não é bem assim, então não é incomum vermos personagens em dramas coreanos, japoneses, chineses e tailandeses fumando mais do que saci e maria-fumaça. Nos dramas mais recentes é um padrão que vem diminuindo, especialmente nos que tem perspectiva de público bom no mercado estrangeiro.
Eu sempre gostei de experimentar produções de vários países, além das brasileiras e anglo-americanas. Então assisto seriados franceses, espanhóis, poloneses, russos, turcos, enfim, me interessam boas histórias e fico feliz quando as formas de contar falam também sobre as culturas de origem. Aprecio o cinema asiático há muitos anos e acho que cine e tv da região nunca foi tão acessível como hoje, graças ao streaming e aos fansubs, então bom proveito!
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