Como as artes do entretenimento são espaço de transgressão, e como ouvir o fã é fundamental.

             " A literatura se situa de fato na esteira das religiões, de que é herdeira. O sacrifício é um romance, um conto, ilustrado de maneira sangrenta. Ou antes, é, em estado rudimentar, uma representação teatral, um drama reduzido ao episódio final, em que a vítima, animal ou humana, atua só, mas atua até a morte. O rito é bem a representação, retomada em data fixa, de um mito, ou seja, essencialmente da morte de um deus. Nada aqui deveria nos surpreender. Sob uma forma simbólica, acontece o mesmo, a cada dia, com o sacrifício da missa." 

                                                                                                                    (O Erotismo, Georges Bataille)


Nós buscamos na literatura, no teatro, cinema, música, jogos, mas formas de arte e entretenimento, formas de transgressão. A transgressão que simula a sensação do aniquilamento, da violência que nos tira da nossa existência individual, isolada, e nos permite retornar a uma consciência contínua, o aniquilamento no outro, uma continuidade no outro, o êxtase.

Quando consumimos tais produtos buscamos esse êxtase, todavia, cada vez mais me convenço que as melhores obras são aquelas que nos incitam a viver a transgressão através delas. E é o erotismo que nos guia nessa senda, nessa linguagem.

O cérebro está para o pensamento, assim como a genitária e sexualidade para o erotismo. A capacidade de erotizar deriva muito do quanto conseguirmos ter consciência de nós mesmos, da nossa individualidade, e dos nossos desejos, daquilo que nos move. O erotismo muda a nossa percepção da realidade, e até de pequenas coisas, transforma a linguagem, concede novos significados para atos, conjura novas sensações.

Mesmo um programa de televisão é capaz de fazer isso, de conclamar pessoas a projetar suas transgressões na tela.

Violência, poder, sexo, incesto, morte, crime, do ato mais vil ao mais heróico. Tudo pode ser colocado num livro ou numa tela, e ser amado por milhares e igualmente odiado por milhares, mas ambos os lados estarão engajados no ritual, de flertar com a transgressão, e obter alguma satisfação, alívio e prazer com ela, e então, de maneira segura, retornar ao mundo real.



Muitos secretamente admiravam a inteligência de Littlefinger, em GoT, e vibravam com seus sucessos, mesmo ele indo além da moral e dos bons costumes. Outros torciam pela Cersei e sentiam pena do Jamie, a havia ainda aqueles que ficaram em conflito por achar que tia e sobrinho deveriam ficar juntos. 

Na nova série, a questão do incesto retorna com ainda mais aceitação do incesto, com mais violência gráfica, com mulheres disputando poder - isso é transgressor - com parentes matando parente.

Ora, como algo assim pode ser sucesso? Do mesmo jeito como tantos livros gregos foram: tabu vende, jornal policial vende, escândalo vende. As pessoas que consomem, gozam daquilo que lêem, sem ter necessariamente sujado as mãos, e ainda podem, ao final, servir de júri e condenar indiscriminadamente.

Mas o momento da leitura e de assistir? É uma forma perversa de participar e gozar. 



Game of Thrones falhou nas duas últimas temporadas ao não se permitir ser essa catarse, ao não garantir a transgressão, ao não dar o incesto legitimado magicamente, e com frutos, ao não punir exemplarmente sem culpa os vilões, ao não fazer fanservice. O fan é o que deseja, é o que está pedindo o gozo, antecipando, querendo ver seu prazer esparramado na tela.



Comentários